//A Importância da Informação Pública para a Segurança e Defesa da China

A Importância da Informação Pública para a Segurança e Defesa da China

Escritor do Analítico








Sumário

Considerando a informação como, pelo menos, um dos historicamente mais valiosos activos – mais a mais na Era Digital -, a informação pública é naturalmente um dos relevantes vectores para a segurança e defesa de um Estado. No globo, as tecnologias desenvolvem-se, incluindo as comunicacionais, a níveis espantosos. Na China, a classe média ascende a níveis estrondosos. Este vector torna-se assim vulnerável. Este trabalho investiga a forma e substância de seu trato pela classe dirigente chinesa na actualidade, incorporando o interesse da reemergência do país no sistema político internacional e a sua visão ideológica sobre democracia e liberdade que, não-consensualmente, deverá ser traçada até ao Confucionismo, mesmo num regime autoritário que passa pelo pragmatismo económico e passou pelo pragmatismo revolucionário. Porque a internet é a prensa de Gutenberg da contemporaneidade e porque traz informação de forma mais incontrolável, esta merecerá notório destaque. Em 2016, os dados sobre o número de utilizadores de internet na China situam o valor à volta dos setecentos milhões. Em 2000, Bill Clinton afirmou o seguinte: «China has been trying to crack down on the internet – good luck. That’s sort of like trying to nail Jell-O to the wall». Este trabalho responde a esse problema e ao que a world wide web tem significado e poderá significar para o povo chinês. A possibilidade de uma clivagem com os valores ocidentais no seio da sociedade sínica é igualmente tratada. A abertura à influência que a actual estrutura de informação pública do regime tem ao que é directamente externo, idem.

Lista de abreviaturas

GFW – Great Firewall of China

ONG – Organização Não-Governamental

PCC – Partido Comunista Chinês

SPI – Sistema Político Internacional

TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação

VPN – Virtual Private Network

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Introdução

No ranking de liberdade de imprensa da Freedom House, a China situou-se em 2016 no 186.º lugar entre 199 nações. Na liberdade da internet, situou-se no 65.º lugar entre 65 países. O problema inicial deste trabalho é a forma e substância de trato da informação pública pela classe dirigente chinesa na actualidade.

À partida, a primeira ameaça que a informação pública traz num regime autoritário é interna. Não só no conjunto nacional, como em ameaças domésticas de autonomia como são as de separatismo Uighur em Xinjiang e do Tibete, as de declaração formal de independência do Taiwan e as de democratização em Hong Kong (BMI Research, 2016). Porém, esta não é a única ameaça. A internet é o meio mais difícil de controlar. Um grande desafio. General Loureiro dos Santos (2016) afirma:

«A globalização da informação/comunicação e económica poderá ser fortemente ameaçada pela regionalização da internet»1.

Eu discordo da razão fornecida, mas a verdade é que assim teríamos internets separadas. Efectivamente, como é sabido, países como Índia, Austrália, Canadá, EUA e Japão já reportaram ciberataques originários da China. Mas não só a espionagem será uma razão, como também será o conceito autoritário de media que acredita que a imprensa serve a função social positiva de socializar às normas desejadas. O conceito de «guerra» não tem sido utilizado para designar algo entre potências, mas sim «à droga», «à pobreza», «ao crime» (Christopher Coker, 2014). Há uma redefinição de segurança com a globalização. Quanto ao intranacional, será importante relembrar como o «puxar a ficha» da internet na Tunísia, no Egipto e na Líbia conduziu a mais gente nas praças – uma espécie de efeito Streisand. Na China, para que tal não seja necessário, temos à partida a chamada Great Firewall – que bloqueia o acesso simples a diversas páginas web. Ainda assim, Hong Kong em 2014 foi um desafio.

No que diz respeito à relação deste problema com a reemergência da China no sistema político internacional (SPI), gostaria de separar o dito em soft power e hard power. Quanto ao primeiro, deveremos lembrar como os Jogos Olímpicos de Pequim e a Expo de Xangai serviram para melhorar a imagens nos meios internacionais influentes – e, portanto, aumentar o soft power. Na Cimeira do G-20 em Hangzhou, algumas lojas foram obrigadas a fechar, reconstruíram-se ruas, renovaram-se edifícios e até fábricas pararam para garantir um céu mais azul. É diferente de hospedar o encontro anual do Fórum Económico Mundial no pequeníssimo município (11 mil habitantes) de Davos, na Suíça, certamente. Quanto ao hard power, será em relação com a informação pública, a internet e a globalização, relevante destacar o investimento chinês na África Subsariana (220 mil milhões de euros) que de 2005 a 2016 foi quase o dobro daquele que foi levado a cabo nos EUA (122 mil milhões de euros) e cerca de 6.5 vezes o implantado na Rússia (34 mil milhões de euros).

Quanto à relação com a visão ideológica sobre democracia e liberdade, arrisco afirmar que esta não é alheia ao Confucionismo. Porém, Henry Kissinger, mesmo sendo um dos mais reais realista, é um dos que defende a ideia, talvez idealista, de que existe uma cultura estratégica «confucionista pacifista» na China (Kissinger, 2011). E se isto significa, sucintamente, valores basilares como a deferência e o respeito pelas hierarquias, a harmonia societal de cada indivíduo ter deveres específicos a cumprir e a benevolência e a virtude como aspectos inspiradores e educadores da sociedade, poderá esta filosofia estar isolada da legitimação do sistema político chinês da actualidade?

Estas são as questões-chave deste trabalho. O procedimento metodológico seguido foi o de análise de conteúdos e análise estatística. O carácter propõe-se a ser interdisciplinar, sendo a perspectiva dominante a das ciências políticas, invocando também as relações internacionais, a estratégia e a história.

Uma proposta que abre a explicitação do estado actual da informação pública na China: confucionismo e mais

O cristianismo tem uma taxa anual de crescimento na China ligeiramente inferior aos valores mais baixos da taxa de crescimento do seu PIB das últimas duas décadas: cerca de 7%. Este crescimento será largamente alimentado pelos social media (Rodney Stark e Xiuhua Wang, 2015). Lembrando Fukuyama, poderíamos especular que isto se deve a uma ocidentalização/mundialização típica de fim da história.

Tendo já mencionado o confucionismo, assim pretendo colocar esta aparente tensão como analogia. Isto é, será o significado deste crescimento o mesmo que uma vontade, ainda que obscurecida, de ocidentalização (incluindo os valores políticos, incluindo Locke e Rousseau), funcionando por via de contacto com este Ocidente e tendo como ferramenta a única de informação pública que é rebelde e minimamente pertencente ao povo – a internet? Seria um passo demasiado largo, usar valores religioso-filosóficos como exemplo de sistema político vs. ocidentalização. Porém, a noção de pós-ideologia, que chegou a ser comummente usada para descrever a China, parece agora fazer pouco sentido – e isto altera as fontes de legitimação do regime. Por isso mesmo, devemos esclarecer o actual estado da informação pública na China.

O que o governo chinês pretende do seu povo não é aquilo que este costuma colocar em prática quando tem acesso à informação: diversidade criativa. O que o governo chinês pretende é estabilidade e previsibilidade. Num paper de 2006, William Thatcher Dowell afirma o seguinte:

«Americans tend to see Beijing’s obsession with information control as another manifestation of anachronistic communism, but in fact, the Chinese were concerned with centralizing authority and maintaining the prestige of governing officials long before communism emerged as a political ideology»2.

Tal como as palavras do realista Henry Kissinger, estas também apontam para a importância de Confúcio. Assim é ainda mais legítimo quando, relativizando, concebemos a concepção de Lee Kuan Yew, «pai» da Singapura como a conhecemos, nomeando o confucionismo como um sistema para a Ásia Moderna (Kuan Yew, 2000).

Bary e Tu (1998) afirmam que na história da China a patriarquia familiar evoluiu para patriarquia de clãs e entretanto para patriarquia de Estado. A sua matriz social será totalitária. Já os netizens sínicos situar-se-ão hoje em dois pólos – o neo-confucionista e o liberal-ocidental (Jennifer Pan e Yiqing Xu, 2015).

Mas não podendo este ensaio ser excessivamente teológico ou filosófico, apraz avançar.

O estado actual da informação pública na China em si mesmo: internet e jornalismo

Assim, qual é este estado?

A prefeitura de Aba, no Tibete, esteve de 2008 a 2013 sem internet ou com esta em estado muito intermitente. Apenas nos órgãos governamentais a dita se manteve acessível. Assim foi, pois em 2008 começaram os motins de Lhasa, a 14 de Março. A par deste corte, todos os media estrangeiros, incluindo os de Honk Kong, foram proibidos de entrar na região. Outro exemplo interessante, até porque relaciona os meios de informação pública clássicos com a internet, é o do estudo de uma agência que trabalha para o Congresso dos EUA que indica que nas universidades estado-unidenses na China existe liberdade académica, mas menos de metade das universidades integradas no paper têm acesso à internet sem restrições (Government Accountability Office, 2016). Além disso, os campuses destas universidades estão distantes dos das suas homólogas chinesas.

Google, Twitter, Facebook, Instagram, Youtube, Wikipedia e Netflix estão todos proibidos. Porém, não-paradoxalmente, há alternativas semelhantes. O que sucede é uma espécie de intranet chinesa. Estes websites são nos EUA os 1.º, 9.º, 3.º, 12.º, 2.º, 6.º e 10.º mais visitados, respectivamente, segundo o Alexa Ranking. Estão, portanto, para lá da Great Firewall – termo irónico que joga com a Grande Muralha da China. Talvez possamos dizer que, com internet, cortinas (de ferro) são insuficientes. Contudo, ultrapassar esta GFW não é difícil. Basta usar um proxy – servidor que age como intermediário para requisições de clientes solicitando recursos de outros servidores, sem encriptação – de outro país ou uma virtual private network (VPN) – conexão estabelecida sob uma infraestrutura pública ou compartilhada, com encriptação – também de outro país. Evidentemente, ambas estas opções são ilegais. Porém, identificá-las exaustivamente não é assim tão simples e, portanto, tal tarefa não consta na lista de prioridades de nenhum serviço de segurança, sendo assim o risco mínimo. Desta forma, entendemos como a Wikipedia tem 7.1% do seu tráfico mundial na China ou como o Instagram tem 3.6% do dito3. Não sucedendo com os demais websites listados, a explicação reside no facto de estes terem duplicados chineses, como sucede com o Weibo quanto ao Twitter ou com o Renren quanto ao Facebook ou com o QQ quanto ao que foram o MSN e Skype. A rede social mais popular é a Qzone com, em dados de 2014, 645 milhões de contas.

Um ponto que aqui pode ser relacionado com o parágrafo anterior deve ser o de que talvez estas versões copycat provem, também, que ou a China está a caminho de ocidentalização de cosmovisão ou que as diferenças entre civilizações são significativas e a globalização trilha caminho para a criação de cidadãos do Mundo ou que os modelos dessas companhias são ainda mais bem realizados universalmente do que aquilo que lhes damos crédito (aproveitamento da vaidade e narcisismo ocidental, etc.) Seja como for e por mais apetecível que seja este tema, reitero, não há espaço para o tratar.

Retomando, igualmente importante para o entendimento do trato da informação pública pela classe dirigente chinesa está o emprego já em 2005 dos chamados «zombies» para escrever comentários pró-governo nas redes sociais (Guangchao Feng e Steve Guo, 2012), isto já acrescido aos algoritmos que, por exemplo, proíbem pesquisas com determinadas palavras-chave nos motores de busca disponibilizados. Há uma espécie de ciber-polícia que trabalha full-time e acrescida a esta há ainda utilizadores espontâneos, que são conhecidos online como «tias velhas», para monitorizar e apagar comentários (Ming-Hsuan Lee e Mon-Chi Lio, 2014). Em 2005, segundo um artigo do jornal The Guardian desse mesmo ano, estes polícias eram cerca de 30 mil4. Contudo, será também possível que já em 2000 tenham sido contratados pelo Governo 300 mil pessoas para esse tipo de funções (Bin Liang e Hong Lu, 2010). Hoje, tendo os utilizadores da world wide web passado de 100 mil milhões (em 2005) para cerca de 700 mil milhões, poderemos especular. De acordo com o meio de comunicação estatal Beijing News, em 2013 eram já empregados 2 milhões de pessoas. Contudo, será interessante reflectir minimamente sobre o que se passa também no Ocidente: em 2016 foi criado, de seu nome Correct the Record, até um Super PAC (comité de acção política) que fazia algo de semelhante a favor da campanha de Hillary Clinton. O ponto é que, tal como referem Guangchao Feng e Steve Guo:

«The government recognizes the importance of the internet as well as its potential as a threat to its very existence»5.

Aceitando que os jornais servem para passar ideologia, além de para passar verdade, o que temos de entender é que no Ocidente ainda existem várias fontes. Daí, o equilíbrio duma certa auto-regulação. Nos regimes autoritários, evidentemente, este não costuma ser o caso.

Tsui (2003) vai tão longe quanto argumentar que a internet não ameaça o regime e até se tornou numa nova ferramenta governamental de controlo. Certo é, por exemplo, que no ano de 2004, 3.7% do total de domínios registados eram gov.cn (Bin Liang and Hong Lu, 2010) – i.e. eram governamentais. Um certo projecto de governo electrónico, portanto. Algumas das consequências estudadas que podemos identificar serão as de aumento de transparência, aumento da propaganda e ganho de controlo sobre as pressões políticas. Sem dúvida proveitoso. Uma prospecção quanto a isto surge como possível, a de que o governo tornar-se-á mais activo online, em diálogo em vez de censura – esta é sempre insustentável a longo prazo; e é que o próprio número de internautas (e a sua velocidade de crescimento) acelera essa tensão. O Weibo deverá ser uma boa plataforma de início de actividade.

A emergência da tensão já é existente e tal como Wang (2011) argumenta, a consciência dos cidadãos quanto aos seus direitos cresce rapidamente devido à popularidade da internet. Exemplo são os dados de 2012 que indicam que nesse ano havia 564 milhões de utilizadores da internet, sendo que em microblogs estavam 300 milhões (Ming-Hsuan Lee e Mon-Chi Lio, 2014). Nestes trocam-se ideias e opiniões. O mais popular é precisamente o Weibo – um copycat do Twitter.

A internet é uma faca de dois gumes; e as autoridades chinesas não o ignoram.

Claro, estas situações chegam a roçar o absurdo. Exemplo disso é o aprisionamento de Shi Tao que foi condenado a dez anos de cadeia por divulgar um documento estatal em que se lia que o regresso de dissidentes que testemunharam o massacre de Tiananmen se pode provar socialmente desestabilizador (William Dowell, 2006). O governo defendeu-se afirmando que tal documento seria top secret. O absurdo está no óbvio que a informação avisa.

Porém, subsiste jornalismo no «País do Meio»6, tendo o jornalismo investigativo até aumentado em número a partir dos anos 90, quando começam a surgir os primeiros resultados das reformas económicas (Peter Lorentzen, 2014). O ponto é que «algum jornalismo» faz com que os líderes locais se mantenham accountable, se manipule o seu grau de abertura consoante as tensões sociais do momento e se jogue a informação dos meios de comunicação social controlados precisamente contra a internet. A China coloca em prática exactamente estas três tácticas (idem, ibidem). Também McGee e Gaventa (2010) argumentam que a transparência – projecto do qual falarei no capítulo seguinte – conduz, em teoria, à melhoria tanto do estado-social como da accountability. No entanto, na China esse projecto/processo não parece ter conduzido a mais accountability (Yeling Tan, 2012).

Outra situação que descreve o jornalismo na China é a necessidade de todos os jornalistas terem um cartão de imprensa emitido pelo Governo – que o Partido Comunista Chinês (PCC) pode cancelar ou não-renovar. Além disso, os meios de comunicação sociais podem ser suspensos ou fechados. De igual modo, jornalistas são presos – 38 em 2016, 44 em 2014, 34 em 2010, 31 em 20067.

Hirschman conceptualizou a ideia de «voice-exit», em que se expressa insatisfação com o desempenho governativo. Ou se participa no processo (voice) ou há um afastamento (exit), podendo esta segunda opção resultar na destruição da ordem política. Assim é, pois a credibilidade tornar-se-ia nula. Esta ameaça deve sempre pairar na organização dos regimes autoritários.

Ainda hoje, os investidores estrangeiros estão proibidos de ser donos ou gestores de serviços de telecomunicações (Bin Liang and Hong Lu, 2010). Isto tendo em conta que a China já entrou na Organização Mundial do Comércio em 2001. Outro caso exemplificador do estado do jornalismo sínico é aquilo que na prática foi a não-cobertura do uso da internet nos protestos da apelidada Primavera Árabe (Ying Du, 2015). Nem do uso, nem do seu desligar pelas autoridades governamentais. Neste acontecimento também se prova a importância da internet para a informação pública, exactamente no duplo sentido de que tal censura alheia não foi coberta e no sentido de que ao ter essa não-cobertura noutra plataforma (quero dizer, o papel e a televisão), esta tarefa de ocultação é muito mais acessível.

Será possível, contudo, que toda esta estrutura assente fulcralmente não na organização top-down da informação pública (que, por sinal, dependeu originalmente da ajuda tecnológica de diversas companhias ocidentais), mas sim na auto-censura. Esta existe por parte dos websites e por parte das empresas, estrangeiros incluídos (Bin Liang e Hong Lu, 2010). Se assim for, esta estratégia é notoriamente frágil. E assim as elites dirigentes chinesas terão mesmo de aumentar a sua actividade de diálogo online. Disto depende a segurança e defesa do Estado. Nomeadamente, no que diz respeito ao que é interno. Com a internet, tudo acontece muito mais depressa. A vontade de desintegração da censura pode surgir com vigor e traduzir-se em magnitude.

Uma prática de recoding – fugir à censura usando outros códigos – é já visível (Fan Yang, 2014). O Incidente de 4 de Junho, como as autoridades sínicas o tratam (i.e. o que se passou em Tiananmen), é tratado online como «535», ou seja, o dia 35 de Maio, dado que pesquisar ou falar no 4 de Junho é altamente controlado pelos algoritmos e pela ciber-polícia. O que Ai Wei Wei fez na sua instalação no museu Hirshhorn em 2012, serve a mesma lógica – usou caranguejos de rio, cujo termo em mandarim se escreve da mesma maneira que «harmonia», o que por sua vez é um termo usado pelo Estado para justificar o policiamento de informação na internet. É resistência.

Um projecto de transparência

O governo chinês está activamente comprometido com o desenvolvimento da internet (Ming-Hsuan Lee e Mon-Chi Lio, 2014). E não poderia deixar de assim ser. As oportunidades e ameaças são imensas. Por exemplo, querendo os benefícios económicos das tecnologias de informação e comunicação (TIC), o Ministério da Agricultura ajudou os camponeses a venderem os seus produtos online. Noutro sentido, existem indicações para que a internet seja, dentro das TIC, a variável mais interessante tanto para melhorar a governança como a corrupção (idem, ibidem). Não será muito surpreendente.

Outra direcção, contudo, é aquela que leva a que a China tenha sido já em 2007 – altura em que ainda não tinham ultrapassado os Estados Unidos em número absoluto de internautas8 (tal sucede em 2008) – o segundo país com mais cibercrime do Mundo, apenas atrás dos mesmos EUA9.

Considerando isto, desde 2008 existe nacionalmente um compromisso das autoridades com a divulgação de informação administrativa. Quanto às vilas, esta já existia desde os anos 90. Inclui escolas, hospitais e empresas de serviços públicos. Mas sendo transparência, não é democracia (Sun Yu et al., 2014). Contudo, um cidadão pode mesmo pedir a divulgação de documentos. O nome deste projecto é Regulações da República Popular da China sobre Divulgação Governamental. Mas o aparato do PCC continua sem restrições e assim mesmo os órgãos administrativos e demais organizações são obstáculos à transparência (idem, ibidem); e.g. pode-se alegar segredo de Estado sem que este conceito esteja minimamente definido (Bin Liang e Hong Lu, 2010). Isto abre azo a uma flexibilidade de interpretações, e tal estado será propositado. Em 2012, já todos os 98 órgãos de governo central cumpriram.

Também quanto a este tema, e segundo o mesmo artigo de 2014 Public Access to Government Information in the Digital Age, parece que a actividade na internet terá sido a força-motriz por detrás da necessidade de transparência. Os netizens poderão mesmo ser um novo grupo de pressão. Certo é, no entanto, que:

«The general public is indifferent to the information published by administrative organs and organizations, but is intensely concerned about the hot issues publicized by grassroots opinion leaders through social media»10.

Mas isto significa que a internet funciona. Que as redes sociais são mais usadas que as plataformas informativas/académicas duras, também o sabemos no Ocidente. Além do mais, fica claro que os relatórios estão circundados de red tape e nenhum tipo de análise estatística entre todos esses dados é igualmente fornecido – ou seja, não há uma melhoria na divulgação prática, pois há um ambiente burocrático fragmentado e as relações Estado-sociedade permanecem sob autoritarismo (Yeling Tan, 2012).

Num estudo sobre a transparência quanto ao ambiente, fica claro que estes não produziram maior transparência exactamente nas cidades mais poluídas (idem, ibidem). Interessante é encontrar neste artigo duas situações que inflectem sobre a segurança e defesa: a) as relações entre Estado e empresas têm uma forte influência na transparência governamental; b) pelo menos no que diz respeito ao ambiente, as ONGs têm aproveitado a nova transparência, analisando e estudando os dados divulgados. O resultado final, muitas vezes, acabou por ser o de as grandes multinacionais pegarem neste trabalho e conseguirem diminuir a poluição das empresas. Não o governo, não alguma pressão dos cidadãos por si mesma, mas as multinacionais. Isto significa que há uma governança de múltiplos actores e que sozinho nenhum deles é suficiente. Num estado autoritário, como resultado de um projecto seu, isto é muito interessante. Prova que o poder das ONGs não é vácuo.

Quanto à reemergência da China no SPI: curto pensamento relacionado com o soft power

O hard power tem uma quantificação mais acessível, daí a escolha. Acrescido a isto, o soft power talvez seja hoje mais importante que nunca – devido à institucionalização das relações entre Estados e à maior proximidade entre nações – e a China, é sabido, é um dos países com melhores índices deste conceito cunhado originalmente por Joseph Nye. Mais do que isto, a informação pública não tem relação imediata com o hard power.

Um exemplo da reemergência no SPI com uso do seu soft power será a propagação (e veloz) de Institutos Confúcio11 que em 2015 somavam-se já em 500.

Dito isto, a China usa o soft power internamente, mantendo uma ideia de bárbaros vs. civilizados (William Callahan, 2015). Isto, desde logo, não é novo – podemos exemplificá-lo com a forma como Lord Macartney foi recebido no séc. XVIII ou como os portugueses foram apelidados de «bárbaros do sul». Hoje, está (novamente) claro que a China – pelo menos ao nível governamental – não tem interesse em integrar-se no Ocidente. Não tem interesse no american dream, até porque tem o seu «sonho chinês». Efectivamente, há até propaganda anti-americana, anti-ocidental e, principalmente, anti-japonesa promovida (idem, ibidem). Karl Deutsch, sobre a necessidade de construir força nacional e integração, escreveu o seguinte:

«The prime need is for cohesion, for the close complementarity of parts to force them into one dependable whole»12.

Esta fase – de nationbuilding – começou em 1949, será perceptível que persista. Nos anos 70, a informação que as elites recebiam também era anti-americana (Alan Liu, 1974). Sempre foi uma cosmovisão, a partir de 1949 tem de ser até mais prática do que isso.

Contudo, é importante reflectir sobre o que os capítulos anteriores significam para uma vontade vinda da população – e que a internet propulsiona. A utilização de soft power internamente pode vir a ter de tomar outros contornos. Segundo James Rosenau:

«Individuals have become paramount actors mainly because of the internet»13.

Conclusões

Da forma e substância de trato da informação pública pela classe dirigente chinesa na actualidade, podemos retirar diversas ilações. Uma delas é que a ameaça será em primeiro lugar interna, dada a natureza do regime. Tal como isso, a internet merece destaque porque é o meio mais difícil de controlar. Além dos media controlados, existe uma Great Firewall que bloqueia o acesso a diversas páginas web e acrescida a esta existe uma ciber-polícia que monitoriza a actividade geral nas redes sociais, o que é concludente na prática de auto-censura. Nenhuma diversidade criativa é encorajada.

A possibilidade da visão ideológica existente sobre a democracia e liberdade advir, pelo menos parcialmente, do Confucionismo merece mais aprofundado estudo. A existência de uma cultura estratégica dependente desse pensamento poderá ser real. Simultaneamente, uma tensão entre esses valores e uma possibilidade de ocidentalização de cosmovisão por via de mundialização parece susceptível de emergir.

O estabelecimento de um e-government promovido pelas autoridades sínicas traduzir-se-á num aumento de transparência administrativa (já verificado), num aumento da propaganda (já verificado online) e num ganho de controlo sobre as pressões políticas (o desafio). Fica claro que o governo está activamente comprometido com o desenvolvimento da internet. A transparência, contudo, tem desde já um problema: o ambiente de burocracia é fragmentado e as relações Estado-sociedade permanecem sob o jugo do autoritarismo. Quanto à segurança e defesa externa, as relações entre Estado e empresas têm uma forte influência na transparência governamental e as ONGs têm aproveitado esta transparência para análise de dados – trabalho que as multinacionais usam para pressionar, com sucesso, o governo.

Um ponto geral em prospecção é o de que as autoridades chinesas deverão investir mais no diálogo directo online com os seus cidadãos.

Referências

1 Santos, Loureiro dos (2016). A guerra no meio de nós. Lisboa: Clube do Autor, p.47

2 Dowell, W. (2006). The Internet, Censorship, and China. Georgetown Journal of International Affairs, 7(2), p.116.

3 Ambos os dados também segundo a companhia Alexa Internet

4 «China’s secret internet police target critics with web of propaganda» de Jonathan Watts

5 Feng, G. e Guo, S. (2013). Tracing the route of China’s Internet censorship: An empirical study. Telematics and Informatics, 30(4), p.343.

6 Tradução literal de «Zhongguo», «China» em mandarim

7 Dados da ONG Committee to Protect Journalists

9 Dados do website chinês http://singtaonet.com/

10 Yu, S., Shengcui, D., Bin, F. e Qiuyan, Z. (2014). Public Access to Government Information in the Digital Age: Findings from China. Korean Social Science Journal, 41(1), p.6.

11 Que podem ser comparáveis ao Instituto Camões ou à Alliance Française

12 Deutsch, K. (1953). Nationalism and social communication. [Cambridge]: Publicado conjuntamente pela Technology Press do Massachusetts Institute of Technology, e Wiley, Nova Iorque, p.83

13 Whitman, J. (2009). Palgrave advances in global governance. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, p.1

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